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#5 – Ensaio Sobre a Cegueira: ver sem enxergar

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Com direção do brasileiro Fernando Meirelles, o filme Ensaio sobre Cegueira, baseado no livro de mesmo nome de José Saramago, conta a história de uma epidemia que deixa as pessoas cegas, enxergando apenas uma superfície branca. Ela se manifesta em um homem no trânsito e logo depois se alastra pelo país. Aos poucos, quase todos acabam cegos e colocados em quarentena. A trama então segue a mulher de um médico, que diferente do restante da população, não ficou cega. O foco do filme não é a causa ou cura da doença, mas a luta pela sobrevivência e a volta aos instintos básicos de uma sociedade que perde tudo o que considera civilizado.

O filme apresenta cenas bem fortes, onde os traços que nos tornam humanos são quase apagados, e todos começam a agir feito animais. As pessoas na quarentena se encontram em uma situação deplorável, sem cuidados básicos de saúde, sem saneamento, e precisando brigar grotescamente pela pouca comida distribuída. Cada um esquece de ser civilizado, e buscam suprir apenas suas necessidades individuais, sem se preocupar com a sobrevivência coletiva.

Essa é uma leitura muito triste da realidade, pois em nossa sociedade moderna, quantas vezes não nos separamos das necessidades encontradas ao nosso redor. Na busca por satisfazer nossas individualidades, nossos caprichos e luxos, pensando em nós mesmos, nos tornamos cegos para a realidade que se encontra lá fora, no outro.

Por outro lado, enxergamos as pessoas apenas pelo que elas podem proporcionar para nós, e o bem que nos podem fazer, sem de fato enxergá-las pelo que realmente são, pessoas. E após tanto sofrimento e dor durante o filme, quando tudo o que é luxo é derrubado, as pessoas acabam achando uma harmonia na sobrevivência, e se encontram conversando, interagindo uns com os outros como iguais, pois não podem mais ver as barreiras preconceituosas de classe, condição financeira, cor ou raça.

No filme, a mulher que enxerga se torna tão inerte quanto os que estão cegos. Ela não reage ao sofrimento que ocorre, buscando apenas a preservação de si mesma e do marido, tornando-se também cega para o que os outros precisam. É só mais para o fim que ela realmente sai da inatividade e auxilia o próximo. A sociedade hoje em geral, está condicionada a uma cegueira muito parecida. Ao presenciarmos tanta miséria, tanta falta de ajuste no mundo, perdemos nossa sensibilidade, e passamos a enxergar apenas o que queremos ver. O filme nos chama para enxergar além dessa cegueira. De reavaliar o que realmente importa e resignificar aquilo que chamamos de civilidade.

É possível que ao escolhermos somente o que nos convém, e virarmos o rosto para a necessidade alheia, buscando apenas o material e individual, nos tornemos tão cegos e animalescos quanto as  pessoas do filme. A maior lição que podemos tirar desse filme ou livro é: ser cego não significa apenas a falta de visão. Muitas vezes, pode significar não enxergar tão profundamente.

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