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#11 – House M.D: o inferno são os outros

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Na minha modesta opinião, “Dr. House” é, sem dúvida, uma das melhores séries que já acompanhei. Seja pela profundidade psicológica dos personagens, seja pela brilhante atuação de Hugh Laurie ou simplesmente pelo clima de enigma médico inspirado nos livros de mistério criminal de Sherlock Holmes.

House é especialista em diagnósticos, o que significa que ele comanda uma equipe de médicos que se dedicam a descobrir nos pacientes doenças que ninguém mais conseguiu descobrir. House possui uma brilhante mente médica, mas zero habilidade social, o que implica em um tratamento seco e ríspido com os poucos que o cercam e praticamente nenhum contato com os pacientes.

É necessário frisar esse ponto na série, pois ele nos mostra algo muito importante. Nós somos seres projetados para o relacionamento social. É uma necessidade humana. As pessoas buscam mais do que simplesmente terem seus problemas solucionados. Querem ser ouvidas, receberem atenção e aceitação. Essa é uma das razões porque as pessoas procuram psicólogos cada vez mais. Mas por que House despreza a humanidade? Será que ele é apenas um mero personagem ou podemos muitas vezes ser como ele?

Em sua obra “O Ser e o Nada”, Sartre numera três razões pelas quais o ser humano costuma antagonizar, ou seja, se opor a seu próximo. A primeira razão, é que os outros são obstáculos no caminho da nossa vontade. Temos metas, anseios e queremos coisas que muitas vezes se cruzam com a vontade ou interferência do outro, causando um desvio em nossa liberdade.  Isso fica evidente no comportamento de House quando ele é obrigado a trabalhar na clínica. Ele despreza os pacientes comuns, maltrata e até chantageia, pois vê neles um desperdício de seu tempo, e um empecilho para voltar a seus casos.

Outra razão dada por Sartre, é que os outros nos transformam em objetos. Através de avaliações dos atributos físicos como peso, altura e cor, somos lembrados dolorosamente de que somos seres físicos, confinados às limitações desses atributos. House salva dezenas de vidas no decorrer da série, casos impossíveis que foram dados como perdidos, mas ele não faz a mínima questão de saber sobre seus pacientes, suas histórias e suas lutas. Seus casos são apenas quebra-cabeças a serem resolvidos. Seus pacientes são meros objetos de estudo.

Finalmente, Sartre indica que nossos problemas de conflito estão ligados a perda da primazia e do controle que os outros geram para nós. Temos nossa forma peculiar de enxergar o mundo e interagir com ele, possuímos valores próprios, crenças e coisas que consideramos mais importantes, mas os outros também têm. Eles podem enxergar o mundo e interagir com ele de uma forma totalmente oposta à nossa e costumam resistir fortemente às nossas tentativas de mudá-los. Nós não gostamos disso. Precisamos estar no controle. Novamente vemos em House uma ilustração para esse ponto. A forma como ele manipula, zomba e conflita com seus colegas, superiores e subordinados, mostra como é difícil ter um relacionamento com quem não pensa como você.

É engraçado observá-lo no decorrer da série, mas pense comigo: se você estivesse no papel dos outros, como você se sentiria lidando com alguém como House? Pense muito bem nisso, porque muitas vezes é assim que tratamos as pessoas.

O outro é uma necessidade constante na nossa vida. É através do olhar do outro que eu enxergo minhas necessidades de mudar, de crescer e formar minha identidade para viver em harmonia. O relacionamento é algo fundamental dentro da sociedade. Dependendo da forma como nos relacionamos, podemos mudar para melhor ou para pior. Mas através de House, uma coisa fica clara, quase sempre, existe uma diferença muito grande entre consertar e curar.

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